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Terapia Ocupacional

Terapia Ocupacional

Carreira e profissão

Entrevista com Ana Leite, Terapeuta Ocupacional pela UFPE, Mestre em Design e Ergonomia e Especialista em Neuropsicologia
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Terapia Ocupacional

Entrevista com Suellen Merencio da Silva

Formada em Terapia Ocupacional com pós-graduação em Saúde Mental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e cursos nas áreas de Reabilitação Cognitiva e Desenvolvimento Humano.

Instagram: @to_suellen

 

Por que você escolheu Terapia Ocupacional?

Eu estava indecisa entre várias profissões e meu pai me disse para pesquisar sobre a Fisioterapia, visto que, tanto eu quanto ele, já havíamos sido atendidos por esse profissional, contudo, ao pesquisar, não tive muita identificação. Foi em uma conversa com uma professora do curso pré-vestibular que ela me falou sobre a Terapia Ocupacional. Fui procurar mais sobre a profissão e acabei me apaixonando. Sempre fui o tipo de pessoa que gosta de ouvir os outros, suas histórias e queixas, mas também gosto de fazer coisas. O determinante para minha escolha foi o objeto de estudo da profissão: o fazer humano. Confesso que na época não entendia direito o que era isso e o quanto é significativo para o desempenho profissional. Com a graduação, isso foi clareando e hoje sei que fiz a escolha certa.

 

O que faz um Terapeuta Ocupacional?

A Terapia Ocupacional é uma área da Saúde e da Assistência Social preocupada com o estudo do fazer humano e, consequentemente, em proporcionar ações em que a pessoa consiga realizar atividades significativas. O processo terapêutico ocupacional envolve a avaliação, intervenção e reavaliação dos déficits no desempenho ocupacional do cliente/usuário/paciente. O terapeuta ocupacional atua no desenvolvimento de habilidades, funções e estruturas do corpo para que a pessoa consiga se engajar e desempenhar as ocupações humanas de maneira mais eficiente. Qualquer pessoa com dificuldade na autonomia e independência ou dificuldade em desempenhar atividades significativas e necessárias à qualidade de vida pode procurar a ajuda de um terapeuta ocupacional.

 

Que tipo de trabalho você faz?

Os atendimentos podem ser individuais e em grupos, dependendo da necessidade do cliente/usuário/paciente e, geralmente, eu utilizo atividades estruturadas e planejadas previamente. As atividades desenvolvidas são escolhidas de acordo com a necessidade de cada pessoa ou grupo de pessoas. Geralmente, o foco é no desenvolvimento de habilidades motoras, sociais, emocionais e cognitivas.

 

Como é seu dia a dia profissional típico?

Eu trabalho em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), onde atendendo pessoas de 18 a 70 anos com transtornos mentais graves e em uma Escola Especial prestando atendimento clínico para crianças de 01 a 11 anos.

No CAPS, por se tratar de um serviço público de saúde e com caráter territorial, minha rotina é estruturada por meio de escala. Em um dia faço acolhimento e entrevista com pacientes que estão chegando ao serviço; no outro faço grupos e oficinas terapêuticas. Também realizo atendimentos individuais; ambiência e matriciamento.

O CAPS caracteriza-se como um serviço territorial, ou seja, precisa estar o mais próximo possível de seu público alvo. Nesse sentido, usamos a Ambiência como uma estratégia de aproximação dos usuários que frequentam o serviço. O termo significa o ambiente que circunda os seres vivos, desta forma o terapeuta ocupacional quando está no papel de Ambiência precisa tornar o CAPS um espaço organizado, atrativo e de convivência para os usuários.

Matriciamento é uma metodologia técnico-pedagógica de apoio aos profissionais que atuam nas Unidades de Saúde, ou seja, os profissionais do CAPS podem auxiliar na construção de metas e estratégias para o atendimento de casos de transtorno mental grave juntos com os profissionais das Unidades de Saúde. Através do Matriciamento podemos aproximar equipes na lógica do trabalho em rede e também na produção de um cuidado mais especifico para a pessoa em sofrimento por transtornos mentais ou dependência química. O Matriciamento corresponde uma das metodologias propostas na Reforma Psiquiátrica, um importante recurso do tratamento em liberdade.
Já na Escola Especial, eu realizo atendimentos individuais e em dupla, de trinta minutos. Além de estruturar a rotina de crianças diagnosticadas com autismo, orientar professores sobre o uso de adaptações em sala de aula e prescrever atividades para os familiares realizarem com as crianças em casa.

 

Que tipo de ferramentas, recursos, ideias e metodologias são utilizadas na Terapia Ocupacional?

A principal metodologia de trabalho do terapeuta ocupacional é a Análise da Atividade, enquanto sua ferramenta são as atividades em si. Através da Análise da Atividade, o profissional consegue avaliar e entender no que a mesma irá beneficiar seu cliente/usuário/paciente. Em minha prática, utilizo atividades expressivas, conhecimentos de arteterapia, noções de alongamento muscular e técnicas de respiração, brincar livre e brincar estruturado. Na área de neuropediatria podem ser usados também a Terapia de Integração Sensorial, o método PediaSuit e o conceito Neuroevolutivo Bobath como ferramentas para o tratamento das crianças com transtornos do desenvolvimento.
A principal diferença entre Fisioterapia e Terapia Ocupacional está no seu objeto de intervenção. Enquanto a Fisioterapia preocupa-se com os recursos físicos voltados a promoção, prevenção e tratamento de alterações do movimento (por exemplo, melhorar a amplitude de movimento), a Terapia Ocupacional tem como objetivo o reestabelecimento da função para exercício das ocupações humana (por exemplo, melhorar a amplitude de movimento para lavar os cabelos na hora do banho). Ambas são profissões complementares e, em minha prática na Escola Especial, tenho desenvolvido um trabalho incrível em parceria com a fisioterapeuta. Ela faz o preparo postural do paciente, eu realizo uma atividade significativa que irá auxilia-lo no desempenho ocupacional.

 

Como está o mercado de trabalho em sua profissão?

A Terapia Ocupacional é uma área considerada nova no Brasil, com apenas 100 anos. O mercado é amplo e são várias as possibilidades de atuação do profissional. Poucas pessoas conhecem a profissão e seu potencial no cuidado de pessoas em sofrimento por questões relacionadas ao desempenho ocupacional competente no ambiente. Eu percebo que a profissão está em crescimento, ampliando sua atuação no mercado e enraizando áreas de conhecimento próprias e específicas, o que confere a confiabilidade no papel do terapeuta ocupacional.

 

Quais seriam as principais áreas de atuação na Terapia Ocupacional?

São seis áreas de atuação e cada campo profissional tem suas particularidades e especificidades.
No Campo Social, o terapeuta ocupacional irá atuar em Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) ou Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) no cuidado de pessoas em vulnerabilidade social e no Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF).

Na Saúde Coletiva e Saúde da Família, o profissional pode atuar em atendimentos domiciliares, Núcleos de Apoio Saúde da Família ou Unidades de Saúde. O foco principal do trabalho nessa área é a promoção da saúde e prevenção de doenças e agravamentos de afecções.
Em hospitais, o terapeuta ocupacional pode atuar nas áreas de oncologia, pediatria, pré e pós-cirúrgico, unidade de terapia intensiva, entre outras. Em cada setor o profissional irá desenvolver atividades visando à melhoria do estado clínico e emocional do sujeito.

Na área de Contextos Escolares e Desenvolvimento Infantil, o terapeuta ocupacional pode trabalhar em escolas especiais e escolas de ensino regular. Sua atuação é ampla e compete o cuidado de crianças e adolescentes, com ou sem patologias do desenvolvimento, visando o melhor desempenho na ocupação educação.

Em Saúde Mental, o terapeuta ocupacional pode trabalhar em hospitais psiquiátricos, CAPS, comunidades terapêuticas, clínicas de atendimento psiquiátrico. Cada serviço tem sua especificidade, mas o objetivo principal do terapeuta ocupacional é promover o engajamento com autonomia e independência dos clientes/usuários/pacientes.

Na área de Ergonomia e Saúde do Trabalhador, o profissional tem como objetivo amenizar as pressões por resultados tanto das empresas quanto dos colaboradores. Além disso, busca melhorar os espaços institucionais, organizar os processos de trabalho e facilitar o engajamento do trabalhador em atividades que diminuam o estresse e melhorem seu desempenho.

 

Quanto ganha aproximadamente um profissional com sua formação?

Segundo o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), o piso salarial depende do estado que você irá atuar, variando de R$ 1.829,19 a R$ 5.805,14, sendo a carga horária máxima que o terapeuta ocupacional pode exercer em uma mesma empresa é de 30 horas semanais.

Existem áreas de grande reconhecimento financeiro, como Ergonomia e Saúde do Trabalhador, contudo em via de regra o salário médio deixa a desejar.

 

Quais as principais vantagens dessa profissão?

Minha maior alegria é ver um paciente sorrindo ao realizar uma atividade proposta ou conseguir escolher entre duas ou mais opções. A autonomia e a independência são essenciais na nossa vida e promove-las trás uma grande satisfação. Ver uma criança brincando, escovando os dentes ou se vestindo; ouvir de um paciente o quanto minha atuação fez diferença em sua vida; receber carinhos, olhares e gestos de afeto são situações em que sinto que cumpri o meu papel. Sinto-me privilegiada pelas pessoas que confiam e acreditam em meu trabalho e entregam suas vidas, ou melhor suas ocupações, em minhas mãos.

 

E quais as maiores dificuldades e desafios?

Frequentemente ouço coisas do tipo: “Então sua profissão é uma mistura de Fisioterapia e Psicologia?” e percebo o quanto a profissão ainda não tem o reconhecimento que merece. Além disso, a falta de estabilidade financeira deixa a desejar. Os cursos de aperfeiçoamento e especialização são caros, mas, ao mesmo tempo, são relevantes para quem quer ganhar um bom salário no final do mês.

 

O que se estuda na faculdade de Terapia Ocupacional?

A formação do terapeuta ocupacional é generalista. Durante o curso temos disciplinas das áreas específicas de atuação do profissional citadas acima, assim como Anatomia Humana, Cinesiologia, Fisiologia, Neurologia, Psicologia e Psiquiatria, Bíoquimica, Biologia Celular, Epidemiologia, Filosofia, Sociologia, entre outras. Estudamos também Ética e Deontologia, disciplina que aborda os temas envolvendo a atuação profissional e seu código de ética.

 

Quais matérias do colégio são mais importantes ao se preparar para essa carreira?

Português, Educação Física, Educação Artística, Química e Biologia.

 

Há outras aprendizagens e experiências que não são oferecidas pela escola, mas são importantes ao longo da carreira?

Atividades extracurriculares como dança, música, pintura, computação, literatura podem ser um diferencial durante o curso.

 

É necessário o conhecimento de outro idioma para atuação em sua área? Em caso afirmativo, qual(is)?

O inglês é importante, mas não essencial ao longo do curso.

 

Como deve ser a personalidade e quais devem ser os interesses, desejos e valores de alguém que segue Terapia Ocupacional?

Quem deseja atuar como terapeuta ocupacional precisa ter em sua essência o desejo de estar próximo dos outros. Essa profissão envolve um bom relacionamento interpessoal, a empatia, o respeito às diferenças, a paciência, a simpatia, o desejo de ajudar e ser útil ao próximo. Quem gosta de ouvir histórias, tem imaginação e criatividade fértil poderá se dar bem nessa profissão.

 

É necessária alguma habilidade anterior?

A habilidade essencial para ser um bom terapeuta ocupacional é o desejo de ser um bom terapeuta ocupacional.

 

Você mudaria algo em relação ao seu caminho profissional para chegar ao ponto em que está?

Se eu tivesse a possibilidade de voltar para a universidade, eu estudaria e me dedicaria mais a cada disciplina do curso. Eu também aproveitaria ainda mais o contato e as trocas com meus professores e colegas.

 

Existem filmes que exemplifiquem a área profissional da Terapia Ocupacional?

“Nise, o Coração da Loucura”
“Dá pra fazer”
“Os Intocáveis”
“Patch Adam’s”
“Como Estrelas na Terra”

 

Quem seriam os profissionais de amplo reconhecimento ou figuras históricas de sua área?

Nise da Silveira, Jô Benneton, Alessandra Cavalcanti, Milton Mariotti, Rosemary Hagedorn, Ana Leite (@reabme) e Cíntia Schwab (@terapiaemdrops).

 

Por fim, que dicas de carreira e de vida em geral você gostaria de oferecer para um jovem que está escolhendo sua profissão nesse momento?

O momento da escolha de uma profissão envolve muitas dúvidas, ansiedade e questionamentos. Pesquisar, fazer testes vocacionais, conhecer a universidade e o local onde ocorrem as aulas, conversar com profissionais da área, conversar com familiares e pessoas de confiança são minhas dicas para amenizar os sentimentos que envolvem essa decisão. E lembre-se que sempre podemos fazer um novo começo!

 

E você teria alguma orientação específica para quem deseja seguir a mesma profissão que você?

Além das dicas descritas acima, sugiro visitas em locais onde atuam terapeutas ocupacionais e visita a feira de profissões para conversar com os professores e acadêmicos.

 

Como alguém pode fazer para saber mais sobre Terapia Ocupacional?

O site do COFFITO (Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional) tem informações sobre a profissão. Além disso, você pode encontrar diversas páginas nas redes sociais que divulgam o trabalho dos terapeutas ocupacionais no Brasil e no mundo.

Links recomendados:

Associação profissional: Associação Brasileira de Terapia Ocupacional (ABRATO)

Associação Cultural dos Terapeutas Ocupacionais do Paraná (ACTOEP)

https://www.reab.me/

Terapia Ocupacional – UFPR

Vídeo: Vocação Terapia Ocupacional – UFPR TV

 

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