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Museologia

Museologia

Entrevista com Ivan Coelho de Sá

Diretor da Escola de Museologia da UNI-Rio

Graduado em Museologia (UNIRIO) e Pintura (Escola de Belas Artes-EBA/UFRJ). Mestre em História da Arte e Doutor em Artes Visuais, ambos pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (EBA-UFRJ). Curso Técnico de Restauração de Documentos Gráficos sobre Papel (Laboratório de Conservação-Restauração da Fundação Casa de Rui Barbosa).

 

Onde você estudou?

Fiz o estudo médio em Minas Gerais e o superior no Rio de Janeiro, na UFRJ e na UNIRIO. Na época, década de 80, havia a possibilidade de cursar duas federais ao mesmo tempo.

 

Por que você escolheu Museologia?

Escolhi a carreira da Museologia ainda criança/adolescente. Desde os 10/12 anos havia decidido que queria trabalhar em museus. Foi uma escolha determinada e amadurecida à medida que chegava o momento do vestibular. Na verdade fiz o Curso de Museologia paralelamente ao Curso de Pintura. O critério mais importante que sempre pautou minhas escolhas foi fazer exatamente o que eu queria e o que gostava. Nos anos 70/80, eu não tinha informação sobre o mercado de trabalho, mas já presumia que seria uma carreira difícil. Nunca conseguir vincular carreira/trabalho com retorno financeiro. Tinha sempre em mente que iria estudar somente o que me desse prazer. Sei que hoje em dia isto tem que ser visto de maneira equilibrada, ou seja, fazer um curso que seja uma escolha vocacional, mas também que possa dar estabilidade econômica.

 

O que faz um Museólogo?

O museólogo talvez seja o profissional que trabalha mais diretamente com Patrimônio Cultural, em todas suas acepções, material e imaterial. Em termos mais específicos ele está apto para trabalhar com todos os processos de musealização/patrimonialização dos bens Culturais, desde a coleta/aquisição, passando pela pesquisa, documentação, conservação e comunicação, esta, já correspondendo a um contato direto com o público e que se manifesta sobretudo nas ações de educação museal e na exposição, o principal elo de diálogo do Museu com a sociedade. Em síntese, todas estas etapas de musealização correspondem a todo um processo de gestão/preservação do patrimônio. O museólogo pensa o Museu e sua inter-relação com o Patrimônio e a sociedade. Ele tem um duplo papel. Ao mesmo tempo em que é gestor de patrimônio musealizado, isto é, um profissional capaz de dar conta das questões técnicas de musealização, é também um agente social, político e cultural ativo, na medida em que o Museu deve ser um espaço participativo em relação à sua comunidade, isto é, um espaço de liberdade, de reflexão, de debate e de construção de uma consciência crítica.

 

Que tipos de trabalhos você já fez?

Já trabalhei em várias áreas da Museologia. A única onde realmente não tive nenhuma experiência foi na parte educativa. Atuei e continuo atuando na pesquisa. Participei de vários projetos específicos de documentação/catalogação. Trabalhei bastante também na organização e montagem de exposições. Trabalhei e continuo trabalhando na conservação, sobretudo na parte relativa à montagem de reservas técnicas e no desenvolvimento de metodologias de acondicionamento.

Ainda como aluno, realizei estágios em importantes instituições museais do Rio de Janeiro: Museu da República, Museu Histórico e Diplomático do Itamarati e Museu Nacional de Belas Artes. Depois de formado meu primeiro trabalho como profissional foi no Museu Histórico Nacional, num projeto da Fundação MUDES. Foi um projeto importante que consistia na revisão catalográfica do acervo de pintura e tive a oportunidade de trabalhar diretamente com Helena Ferrez, que havia publicado, no ano anterior, o “Thesaurus para Acervos Museológicos”, obra pioneira no Brasil em termos de documentação em museus. O MHN vivia um momento histórico de mudanças (gestão Solange Godoy) no sentido de estabelecer uma nova comunicação com o público e também de implantar importantes frentes técnicas como a digitalização de acervo, a reserva técnica e o conceito de conservação preventiva.

Nesta mesma ocasião iniciei um trabalho no recém-criado Museu Histórico do Exército/Forte de Copacabana. Fiz parte da equipe de museólogos encarregada de implantar este museu e fiquei encarregado da parte de Conservação, mas como o Museu estava iniciando foi uma experiência muito boa porque acabávamos participando de várias etapas, inclusive nos projetos de exposição, da pesquisa à montagem.
Outra experiência bastante produtiva foi num projeto do Museu D. João VI (EBA-UFRJ) onde trabalhei com pesquisa, documentação, catalogação e também com reserva técnica, higienização e acondicionamento de acervo.

A partir da década de 90 e dos anos 2000, com a realização do mestrado e do doutorado, minha atuação foi se concentrando mais na docência e hoje ofereço disciplinas de Preservação-Conservação e de História da Arte no Curso de Museologia. Foi uma maneira de conciliar teoria e prática e de aplicar no Curso um pouco da experiência adquirida nos museus.

 

E como é o seu dia a dia profissional típico?

Trabalho na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro-UNIRIO, no Curso de Museologia onde me formei. Sou lotado no Departamento de Estudos e Processos Museológicos – DEPM, que oferece disciplinas aos Cursos de Museologia Integral e Noturno. A Escola de Museologia está vinculada ao Centro de Ciências Humanas e Sociais-CCH que funciona no campus Urca. Dou aula normalmente, na graduação em Museologia e na pós-graduação em Museologia e Patrimônio (PPG-PMUS/UNIRIO/MAST), mas atuo também na gestão. Desde 2017 estou na direção da Escola de Museologia, mas gosto muito de meu trabalho como professor. O contato e o aprendizado com os alunos é o saldo mais positivo e mais enriquecedor que um professor pode ter. Gosto especialmente de oferecer disciplinas que tenham uma parte essencialmente prática. Uma destas disciplinas, Museologia e Preservação IV, trata da gestão e do funcionamento de reservas técnicas, inclusive com a parte de higienização, concepção e elaboração de suportes/caixas para acondicionamento de objetos. A parte prática das disciplinas quebra um pouco com a aridez da parte burocrática.

Recentemente, no âmbito desta disciplina Museologia e Preservação IV, trabalhamos com a discussão sobre a metodologia de acondicionamento de um conjunto de pequenas esculturas em terracota policromada do século XVIII. A metodologia da disciplina consiste em refletir e discutir sobre a melhor forma de acondicionamento do acervo em questão (estudo de caso focado num determinado objeto ou numa coleção), considerando suas características materiais e formais e culmina com a realização de uma proposta na prática. É muito bom quando as reflexões teóricas são materializadas nos trabalhos práticos!

 

Que tipo de ferramentas, recursos, ideias e metodologias um museólogo utiliza?

O museólogo deve se municiar de um grande arsenal teórico e instrumental, que depende de sua atuação. Antes de tudo, independentemente da área em que vá atuar ele tem que se fundamentar teoricamente. A Museologia é um campo disciplinar em processo de consolidação e o museólogo, antes de tudo, tem que refletir conceitualmente sobre a função social da Museologia, do Museu e do próprio profissional museólogo. O Brasil tem dado importantes contribuições ao pensamento museológico. Atualmente são 14 cursos de graduação e 5 programas de pós-graduação. O Curso de Museologia da UNIRIO é o primeiro das Américas e um dos mais antigos do mundo. Tem origem no Curso de Museus criado em 1932 no Museu Histórico Nacional. Este Curso constituiu um verdadeiro marco para o desenvolvimento do campo profissional e disciplinar da Museologia no Brasil, motivo pelo qual a Museologia brasileira tem uma sólida tradição, além de ser extremamente atuante e criativa tendo desenvolvido conceitos próprios condizentes com sua própria realidade.

Por outro lado, a prática museal exige todo um aparato de TI, ou seja, de recursos de computação para acesso, armazenamento, transmissão, tanto de textos quanto de imagens para pesquisa, documentação, exposição, etc., bem como toda a tecnologia que hoje pode ser utilizada para a elaboração de visitas virtuais. Em termos de comunicação o museólogo também pode atuar na concepção de plataformas de mídias virtuais para estabelecer mediação com o público. Ele pode trabalhar tanto na concepção das linguagens quanto na definição dos perfis do público. Naturalmente este trabalho é interdisciplinar e ele terá que dialogar com profissionais da área de TI. Em relação ao trabalho de conservação, o museólogo tem que lidar igualmente com certo aparato tecnológico que vai desde medidores ambientais, tais como termohigrógrafos e luxímetros para aferir índices de umidade relativa, temperatura e luz, até suportes específicos de reserva técnica, como armários compactadores deslizantes, trainéis, etc. A própria análise dos objetos musealizados pressupõe a utilização de lupas, lentes de aumento, luzes especiais como a ultravioleta, bem como câmeras fotográficas digitais para registro documental, análises, etc.

 

Como está o mercado de trabalho em sua profissão?

Eu diria que o mercado de trabalho do museólogo está em crescimento. Quanto mais o museólogo tiver segurança nas diversas frentes em que poderá atuar, mais chances terá para se afirmar profissionalmente. Quanto mais ele flexibilizar e se abrir para as diversas frentes de atuação da Museologia, mais opções haverá de trabalho.

 

Quais seriam as principais áreas de atuação na Museologia?

A Museologia é uma área interdisciplinar e uma das mais flexíveis em termos de atuação. O profissional museólogo tanto pela própria diversidade dos museus e do patrimônio, quanto pela abrangência da formação pode atuar nas diferentes fases/etapas da musealização, que vai da coleta até a comunicação com o público, passando pela gestão, pesquisa, documentação, conservação, educação e exposição. Além disso, pode atuar nas diversas instituições museais, por si só bastante complexas, ou seja, museus históricos, artísticos, etnográficos, científicos, de ciência e tecnologia, de história natural, virtuais, museus casas, museus comunitários, ecomuseus, museus abertos, etc. Além de instituições congêneres como centros culturais, centros de memória, centros de documentação/informação, galerias de arte, institutos de pesquisa, parques e reservas naturais, sítios históricos e arqueológicos, ateliês de artistas plásticos contemporâneos, coleções particulares, etc.

 

Quanto ganha aproximadamente um Museólogo?

Apesar de haver uma proposta salarial sugerida pelo Conselho Federal de Museologia-COFEM a remuneração é relativa e pode variar de 3 a 6mil reais, dependendo da instituição contratante, da região do país, dos anos de experiência profissional, da carga horária contratada, da titulação do profissional e do nível de responsabilidade exigido pelo trabalho. Se valerá a pena em termos financeiros vai depender de cada um, isto é, de como organizar sua vida acadêmica e profissional, e de como administrar suas próprias habilidades e potencialidades. Inúmeros profissionais vivem somente de seus salários como museólogos. Outros diversificam a atuação e combinam o trabalho como museólogo com outras atividades profissionais.

 

Quais as principais vantagens dessa profissão?

A principal vantagem da profissão é exatamente esse alargamento dos horizontes de trabalho. A Museologia é uma área que abre para inúmeras opções de atuação. O museólogo é antes de tudo um teórico/pensador capaz de pensar a Museologia e sua relação com a sociedade e suas diversas formas de museus, culturas e patrimônios. Ele pode atuar tanto na concepção de políticas de cultura e de preservação de patrimônio, quanto de estratégias de desenvolvimento sustentável. Além disso, como Ciência Social Aplicada a Museologia pressupõe toda uma atuação prática, ou seja, o museólogo é também um técnico que viabiliza o pleno funcionamento de um museu e de instituições afins, no que diz respeito à gestão e a todas as ações de preservação: documentação, conservação, exposição, etc. Acredito que uma das maiores alegrias profissionais diz respeito exatamente ao retorno do público, ou seja, quando o museólogo percebe que atingiu diretamente o seu público e que houve efetivamente uma interação com a atividade museal: exposição, educação, mediação etc. A Museologia/o Museu adquirem sentido exatamente quando cumprem sua função maior de dialogar com a sociedade. Por isso mesmo a Museologia tem uma natureza essencialmente humanística na medida em que sua existência está condicionada a esta função social. Função social de natureza ecumênica na medida em que deve atingir todos os públicos, privilegiando sempre a acessibilidade e a inclusão irrestrita de todos os públicos. Mais do que um compromisso social, a Museologia/ o Museu têm que pensar no seu público sob o prisma da cidadania. Esta deve ser uma das maiores alegrias do profissional, atender e interagir com o público sem restrições ou preconceitos.

 

E quais são as maiores dificuldades e desafios?

Dificuldades e desafios são inerentes a praticamente todas as áreas da Cultura no país em função da ausência e/ou da descontinuidade de políticas públicas específicas de museus e de preservação de patrimônio. Este é o maior desafio! Os recursos destinados à área dos museus e do patrimônio são insuficientes e isto repercute nas instituições museais e em todo campo profissional. O profissional de Museologia recém-formado deve superar os desafios do campo buscando explorar ao máximo os conhecimentos adquiridos na formação, bem como em estágios e cursos extracurriculares, ou seja, tem que saber canalizar suas potencialidades e habilidades para áreas específicas dentro da grande complexidade do universo museal. Para saber se impor como profissional é fundamental que ele tenha tido uma boa formação, isto é, tenha aproveitado efetivamente do conhecimento transmitido nas várias disciplinas que compõem o currículo. Mas também é importante saber administrar sua carreira desde a Universidade em termos de estágios, bolsas de pesquisa, monitorias, projetos de extensão, etc. Após a graduação é necessário continuar os estudos na pós-graduação, especialização, mestrado e doutorado. Uma sólida formação e uma titulação bem articulada em termos de áreas de conhecimento instrumentalizam mais o museólogo e conferem um diferencial maior no mercado de trabalho.

 

O que se estuda na faculdade de Museologia?

A matriz curricular do Curso de Museologia da UNIRIO possui um eixo central, específico de Museologia e que diz respeito diretamente ao próprio campo disciplinar. As disciplinas deste eixo trabalham questões teóricas; os pensadores e os conceitos que fundamentam o campo; as interfaces teóricas e conceituais da Museologia com o Patrimônio e a Memória; a função social da Museologia e dos Museus; as tipologias de Museu; a história da Museologia no Brasil e no contexto internacional; as políticas públicas de Cultura e de Museus; a legislação específica da área; etc.

Outro eixo importante refere-se à parte aplicada da Museologia, ou seja, mais diretamente ligada à prática museal como Museologia e Documentação/Informação, Museologia e Preservação/Conservação e Museologia e Comunicação/Exposição. Estas disciplinas de comunicação culminam, no penúltimo período com a realização de uma Exposição Curricular onde são observados os conhecimentos teóricos e práticos adquiridos ao longo do curso. A Exposição Curricular é um trabalho em equipe, realizado por toda a turma com a orientação direta dos professores de Museologia e Comunicação. Ainda no âmbito da Exposição Curricular está prevista a realização de um seminário debatendo assuntos sobre a temática em questão, bem como a realização de ações educativas para o público externo, também canalizadas para os temas trabalhados na exposição.

Além do eixo específico de Museologia, o Curso possui disciplinas de caráter introdutório, como Metodologia da Pesquisa, Introdução à Filosofia, Introdução à Sociologia, bem como um eixo geral constituído de áreas que reforçam a interdisciplinaridade da Museologia: Antropologia, Ciência da Informação, História, História da Arte e Arqueologia. Existe também um eixo de Ciências Naturais com disciplinas de Patrimônio Natural, Biodiversidade e Meio-Ambiente e Fundamentos de Paleontologia.

O último período do Curso prevê um Estágio Curricular (obrigatório) em uma instituição museal e a realização de uma monografia (TCC – Trabalho de Conclusão de Curso), cujo tema deve estar relacionado ao campo da Museologia.

A matriz curricular prevê ainda um quadro bastante multidisciplinar de disciplinas optativas vinculadas aos vários departamentos do CCH: História da América, História da África, História do Rio de Janeiro, Estética, LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), Filosofia da Cultura, Sociedade e Meio Ambiente, Informação, Memória e Documento, Conservação Ambiental, Patrimônio e Meio Ambiente, História dos Movimentos Sociais, etc.

O DEPM oferece igualmente várias disciplinas optativas, em geral relacionadas ao estudo de cultura material e de coleções: Técnicas e Processos Artísticos, Museologia Aplicada a Acervos (Indumentária, Mobiliário, Prataria, Arte Sacra etc.), Tópicos Especiais (Numismática, Heráldica, Filatelia etc.). Várias outras disciplinas optativas têm como objetivo focar algumas áreas trabalhadas em disciplinas gerais: Museologia e Educação, Etnomuseologia, Museologia Social, Exposição e Curadoria etc.

 

Quais matérias do colégio são mais importantes ao se preparar para essa carreira?

Em geral as disciplinas do Ensino Médio que podem ter um caráter básico e preparatório para a graduação em Museologia são das áreas das Ciências Humanas e Sociais, como Sociologia, Filosofia, História e Geografia, inclusive a Geopolítica, pois para entender os processos culturais é necessário saber das dinâmicas sociais e suas inter-relações com as transformações ocorridas no mundo. A parte de Química e Biologia ajuda muito aos que se dedicarem à área da Museologia aplicada à conservação de acervos. A Biologia é importante também para aqueles que venham a se interessar pelos museus de Ciências Naturais. Além destas, as disciplinas de Educação Artística podem dar base ao estudo da Arte e aguçar a percepção do futuro estudante de Museologia que, naturalmente, vai trabalhar a sensibilidade artística na exposição e na estética expográfica.

 

Há outras aprendizagens e experiências que não são oferecidas pela escola, mas são importantes ao longo da carreira?

Sim, não somente a formação acadêmica do Ensino Médio, mas toda experiência de vida, mesmo para os jovens, é importante para o futuro museólogo. Estou me referindo a visitas em museus de todas as tipologias, centros culturais, galerias de arte, e vivências com quaisquer outras manifestações culturais, inclusive viagens e contatos com outras culturas.

 

É necessário o conhecimento de outro idioma para atuação em Museologia?

Dominar outro idioma é sempre bom em qualquer área de conhecimento, pois amplia muito as possibilidades de leitura. O conhecimento da língua inglesa hoje é essencial a qualquer área. Há muita literatura museológica em inglês, francês e espanhol. E também em português.

Hoje, no Brasil, existem cinco programas de pós-graduação (UNIRIO, UFBA, USP, UFPI e UFRGS) todos contando com uma larga produção de dissertações e teses. Além disso, vários textos em inglês e francês foram traduzidos para o português, no entanto, estas traduções poderiam ser muito mais numerosas. De qualquer forma o conhecimento de uma língua estrangeira ajuda muito a entender o debate teórico não só no campo da Museologia, mas também de suas interfaces com outras áreas de conhecimento. E é imprescindível para quem vai fazer mestrado e doutorado, uma “exigência” natural na atualidade.

 

Como deve ser a personalidade e quais devem ser os interesses, desejos e valores de alguém que segue Museologia?

O museólogo deve ter, acima de tudo, sensibilidade e curiosidade em relação à Cultura e ao Patrimônio. Ele tem que ter um olhar diferenciado sobre as questões culturais. Ele deve ter uma visão humanística do mundo, das culturas, dos patrimônios, e de toda sua diversidade. Um museólogo não pode ter preconceito e tem que ter empatia com toda a diversidade humana. O museu é um espaço aberto, democrático e ecumênico, onde cabem todas as diferenças e onde a cidadania deve ser exercida de maneira plena. O museu é um espaço potencialmente político e de inclusão social. O museólogo tem que ter uma visão altruísta e o desejo de contribuir com a sociedade e com seu desenvolvimento investindo em políticas afirmativas que atendam à diversidade humana: cultural, social, étnico-racial, religiosa, de gênero, idades etc.

 

É necessária alguma habilidade anterior?

Não especificamente. Todas as habilidades são bem vindas e podem ser aproveitadas, tais como facilidade de comunicação, de redação, domínio das tecnologias de informação etc.

 

Você mudaria algo em relação ao seu caminho profissional para chegar ao ponto em que está?

Sim, se tivesse que começar de novo talvez agisse de maneira diferente em alguns aspectos, mas não na escolha da profissão. Foi uma escolha da infância, amadurecida na adolescência e concretizada quando tive que decidir a graduação e hoje me sinto muito realizado na profissão.

 

Existem filmes que exemplifiquem sua área profissional?

Existem vários filmes que são metáforas da Museologia, do Museu e do trabalho do museólogo. Os mais conhecidos são: a trilogia “Uma noite no museu”, “Wall-e”, “A dama dourada”, “Caçadores de obras primas”, etc.

 

Quem seriam profissionais de amplo reconhecimento ou figuras históricas da Museologia?

Bom, é uma pergunta difícil e que fatalmente vai fazer com que eu incorra em muitas injustiças. Talvez eu me alongue mais porque tenho um projeto de Memória e História da Museologia o que me ajudará bastante a mapear as figuras históricas, mas não me isentará de cometer esquecimentos. Vou tentar combinar figuras históricas, algumas já falecidas, com personagens que ainda atuam na atualidade. O museólogo mais conhecido no país provavelmente é Clovis Bornay pela visibilidade que teve na sua atuação nos carnavais. Ele trabalhou no Museu Histórico Nacional por mais de 40 anos como Conservador de Museus, nome mais comum dado aos museólogos na época. O MHN teve um papel central no desenvolvimento da profissão no Brasil, pois lá foi implantado o Curso de Museus em 1932, destacando-se como pioneiro Gustavo Barroso que ofereceu a primeira disciplina específica em Museologia no país. Vários de seus alunos trabalharam no MHN, como Nair de Moraes Carvalho, Otávia dos Santos Oliveira, Jenny Dreyfus e inúmeros outros que atuaram nas décadas de 30, 40, 50, 60… Dentre eles podemos destacar Luiz de Castro Faria importante nome da Antropologia brasileira e que trabalhou no Museu Nacional por muitos anos. Geraldo Pitaguary, que atuou na implantação do Museu do Índio e depois criou o Setor de Museologia no Museu Nacional. Mário Barata, formado em 1939, foi o único latino americano que participou da criação do Conselho Internacional de Museus-ICOM, em 1948. Outro nome conhecido é Lygia Martins Costa, atualmente com 104 anos de idade e uma das museólogas pioneiras do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e também das primeiras do Museu Nacional de Belas Artes. Vários museólogos atuaram em áreas afins, como Almir Paredes, na História da Arte; Lélia Coelho Frota, na Arte Popular, e Maria Augusta Machado, que também se dedicou à Arte Popular, à Cultura Negra e à Religiosidade, além de ter sido especialista da obra de Villa-Lobos. Fernanda Moro destacou-se na área da Arqueologia, mas realizou um importante trabalho de Museologia. Juntamente com Lourdes Novaes desenvolveu uma ação pioneira na década de 1980 tendo implantado a primeira experiência ecomuseológica do Brasil, o Ecomuseu de Itaipú. Outra contribuição pioneira importante refere-se à de Maria de Lourdes Parreiras Horta que implantou no Brasil o conceito da Educação Patrimonial. Também na concepção de políticas de Museu e na gestão de órgãos de Patrimônio podemos citar a contribuição de vários museólogos como Neusa Fernandes, Fernanda Moro, Maria Elisa Carrazzoni, Ecyla Brandão, Solange Godoy e Célia Corsino. De minha época como aluno posso citar várias professoras que foram importantes na minha formação, todas museólogas: Therezinha Sarmento, Lucila de Moraes Santos, Sonia Gomes Pereira e Libia Schenker. Violeta Cheniaux foi uma professora também muito marcante pelo seu protagonismo na área da Conservação Preventiva e Liana Ocampo igualmente relevante por ter sido a pioneira na questão da acessibilidade e da inclusão aplicada aos Museus. Tereza Scheiner teve um trabalho pioneiro na Comunicação Museológica ao implantar a exposição curricular no curso, mas também pela sua atuação como teórica da Museologia, área na qual é reconhecia internacionalmente. Implantou o primeiro programa de pós-graduação em Museologia e Patrimônio, o PPGP-MUS, onde ainda é atuante. No campo teórico também se destacou a Prof.ª Waldisa Russio com importante atuação em São Paulo e também reconhecida nacional e internacionalmente. Da Bahia podemos citar Maria Célia Moura Santos, com sólido trabalho na área da Educação Museal e ainda Heloisa Costa, Suely Cerávolo e Marcelo Cunha, dentre vários outros. Em São Paulo, Cristina Bruno, Ignez Mantovani, Marília Cury e Marcelo Araújo. No Paraná, Clarete Maganhoto, e no Rio Grande do Sul, Tarcísio Taborda e Maria Luiza Barcelos. Em Pernambuco, Aécio de Oliveira, Regina Batista e Fernando Ponce de Leon. No Ceará, Henrique Medeiros e Olavo Dutra. No Pará, Vânia Dolores de Oliveira. Na Paraíba, Cristina Negrão. Em Minas Gerais, Orlandino Seitas Fernandes, Celina Barbosa e Yara Mattos. Em Brasília, Celina Kuniyoshi e Andrea Consídera. No Rio de Janeiro, onde sempre houve uma concentração maior de museólogos, podemos citar Mário Chagas, atual diretor do Museu da República, professor e importante articulador da área da Museologia Social. E também Mônica Xexeo, diretora do Museu Nacional de Belas Artes e Vera Alencar, diretora do Museu Castro o Maia; Anaildo Baraçal, atuando também no MNBA, e Cícero de Almeida, museólogo da Casa Gayer/Museu Imperial. No Museu da Imagem e do Som – MIS destacaram-se vários profissionais como Ádua Nesi, Lúcia Viana e Arlete Monck. Estou citando estes nomes que estão me ocorrendo de pronto, mas na verdade a relação é muito maior, com importantes contribuições às várias frentes da Museologia. Principalmente a partir dos anos 2000, com a abertura de novos cursos o quantitativo de museólogos se tornou bastante significativo em todos os estados do país. Naturalmente, se considerarmos o número de museólogos trabalhando efetivamente em Museus, este quantitativo é muito aquém do que deveria ser e os Museus e instituições de Memória e de Patrimônio de todo o país ainda se ressentem da carência de museólogos.

 

Por fim, que dicas de carreira e de vida em geral você gostaria de oferecer para um jovem que está escolhendo sua profissão nesse momento?

Ao escolher uma profissão, independente da idade, jovem, mais maduro ou terceira idade, deve-se pensar efetivamente no que gosta, no objeto de sua paixão e não pensar somente em termos financeiros. Outro ponto que acho importante e que pode afetar mais diretamente aos jovens é o fato de não se dispor a realizar o desejo de outros, mas sim o seu próprio. A escolha de uma carreira deve estar inserida num projeto de vida e trabalho e deve ser uma escolha muito pessoal. Uma escolha que possa constituir uma realização profissional, isto é, que realmente represente um incentivo de vida e que seja prazerosa. Outro ponto que também considero importante é que sempre é tempo de investir em algo que possa trazer realização pessoal e a escolha da carreira/profissão é uma delas.

 

E você teria alguma orientação específica para quem deseja seguir Museologia?

Sim, primeiramente, fazer a graduação com bastante seriedade para poder aproveitá-la ao máximo em termos teóricos e práticos. Procurar fazer estágios para adquirir prática profissional. Ainda na graduação vincular-se a um projeto de pesquisa e continuar os estudos de pós-graduação: especialização, mestrado (profissional ou acadêmico) e doutorado. Em todas estas etapas deve-se sempre procurar unir “o útil ao agradável”, ou seja, escolher áreas que possam nos dar prazer, que sejam instigantes e possam atender às nossas indagações pessoais, mas também que possam potencializar a formação em Museologia e trazer novas perspectivas de atuação profissional.

 

Como alguém pode fazer para saber mais sobre Museologia?

Entrar nas páginas das várias universidades que oferecem a graduação em Museologia. São 14 Cursos de Graduação em Museologia oferecidos em universidades de norte a sul do país: UFBA, UFRB, UNB, UFG, UFMG, UFOP, UFPA, UFPe, UNIRIO, UFPel, UFRGS, UFSC e UFS. Nos repositórios de pesquisas relacionados à área de Museologia e também nas páginas dos museus.

 

Links recomendados

Conselho Federal de Museologia – COFEM

Museus para todos 

Exposição Curricular de 2018.2 “Souburbio: Um Jeito de Ser Carioca” 

Exposição Curricular 2017.2 “Liberdade de ser: Diversidade de Gênero e Orientação Sexual” 

Exposição Curricular 2017.1 “Tropicália: 50 anos” 

Núcleo de Memória da Museologia no Brasil – NUMMUS 

Vídeo: Canal do Núcleo de Memória da Museologia no Brasil – NUMMUS

 

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