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Medicina

Medicina

Carreira em Oncologia

Entrevista com Fernanda Esteves, Médica pela UFRJ com Residência em Oncologia Clínica na UFRJ

Carreira em Cardiologia

Entrevista com Eduardo Martins, Médico pela Uni-Rio com Residência em Cardiologia no Prontocor em Belo Horizonte

Em linhas gerais, qual é a sua formação e em qual área da Medicina você atua?

Meu nome é Eduardo Martins. Eu sou cardiologista e me formei na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) em 2003 e fiz a minha residência em Cardiologia no Hospital Prontocor em Belo Horizonte de 2004 a início de 2007. Eu fiz uma parte dessa residência nos Estados Unidos na Cleveland Clinic, Ohio, em 2006 e onde eu mais atuo na Medicina é dentro da Cardiologia na área de insuficiência cardíaca que é aquele estágio final do coração insuficiente. Eu me dedico também ao estudo da Cardiologia Comportamental, estudo que faço por conta pessoal e um interesse de área, que é a união da Psicologia Cognitiva Comportamental com a Cardiologia. Eu tenho um título de especialização em Ergometria na área de Carga Ergometria e exame cardiopulmonar onde eu também trabalho.


Como é o seu dia a dia profissional típico?

Então, basicamente para vocês terem uma idéia do meu dia a dia, eu me dedico à parte de consultório onde trabalho boa parte da semana. Eu faço exames ergométricos, testes de esforço e cintilografia do coração e do miocárdio além de fazer sobreaviso em dois hospitais, em hospital público e no hospital particular e essa é mais ou menos a minha semana.

Eu trabalho em dois hospitais basicamente: no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu e no Hospital Ministro Costa Cavalcanti. Dentro do Hospital Costa Cavalcanti, eu atuo em uma clínica de imagem chamada Vita Imagem, onde faço exames de cintilografia e no hospital propriamente, atuo no sobreaviso da Cardiologia, um período em que você fica 24 horas on call, ou seja, eles podem te chamar a qualquer hora e nós dividimos com mais alguns colegas da Cardiologia. Eu atendo no consultório três vezes por semana e faço exame de esteira de ergometria com a mesma frequência. Então, dentro do Hospital Ministro Costa Cavalcanti, eu atuo nessas áreas e no hospital público municipal, eu faço o sobreaviso de 15 dias, então eu fico 15 dias também sujeito a receber uma ligação a qualquer momento, a qualquer instante e ir lá avaliar pacientes na UTI, em pré operatório, na enfermaria, onde fazemos avaliações cardiológicas de risco cirúrgico e para o estabelecimento de conduta e pareceres técnicos na área da Cardiologia.


Que tipo de ferramentas, recursos, idéias e metodologias um Médico utiliza?

Uma coisa que eu gosto muito de fazer é evitar que as pessoas fiquem doentes, principalmente na área da Cardiologia em que nós temos um coração só e miocárdio, se ele parar, acabou a vida. Então, o coração precisa ser muito bem cuidado. Os instrumentos que uso para me tornar um profissional melhor é o estudo de áreas correlatas à Cardiologia porque o que eu costumo dizer aos meus pacientes é que qualquer porta onde está escrito cardiologista, esse profissional saberá passar um anti-hipertensivo, baixar o colesterol, avaliar o risco de esse paciente morrer em função dos fatores de risco que a pessoa apresenta, por exemplo, tabagismo, obesidade, hipertensão, diabetes, entre outros. Então profissionalmente e tecnicamente, hoje em dia, nós temos grandes profissionais em várias cidades do Brasil, não só nas grandes capitais, mas no interior também.

Eu procuro estudar, por exemplo, dentro da Cardiologia Comportamental o que melhora a minha sensibilidade para poder entender o paciente, para poder extrair dele aquilo que ele precisa e não aplicar o que eu aprendi indiscriminadamente a todos de maneira uniforme e homogênea até porque as pessoas são diferentes. Essa é uma das ferramentas. Eu gosto de estudar muito áreas correlatas, uma delas é a Psicologia Cognitiva Comportamental. Outros recursos que uso são congressos e aulas. Eu assino um periódico de uma empresa que me oferece atualizações em Cardiologia a cada mês, então isso é bem importante porque você adquire o conhecimento cognitivamente pelo estudo, mas você o transforma em sabedoria através da prática, então não adianta ter muita pressa em querer ser um bom profissional. Com o tempo, você se torna um bom profissional por causa da prática e à medida que você tem mais prática, não pode se esquecer da teoria, então essas reciclagens, esses estudos que você pode fazer através de atualizações periódicas, de cursos online são bem importantes. As metodologias são cursos praticamente.

Uma coisa que ensina muito é dar aula e gosto muito de dar palestras sobre assuntos correlatos aos temas que estudo. Recentemente, dei uma palestra na Casa do Diabético justamente para falar de mudança de hábito que é um desafio para todos nós. Quando você preparara uma aula, você precisa revisar literatura, você se lembrará de casos que atendeu, fará conexões, associações, pontes de conhecimento de uma área com a outra, então isso ajuda demais na hora que você vai atender de novo um paciente com aquela demanda e questão, tudo vem na cabeça e as coisas começam a fazer sentido e a se conectar melhor.

Quando você está atuando na função de médico, a teoria e a prática precisam conversar muito entre si na sua cabeça e às vezes temos muita ansiedade e preocupação porque o conhecimento no início da profissão não vem tão rápido, precisamos ter paciência e dedicação. A prática é que contribuirá para sua formação teórica e a teoria te ajudará na prática, então são dois caminhos que precisam se conectar na nossa cabeça o tempo todo. À medida que você atua na prática e depois prepara uma aula e estuda aquele caso, você faz as pontes da teoria com a prática: isso é uma metodologia muito importante.

Todos os médicos praticamente saem da faculdade com a sensação de que não sabem nada e quando chegam à residência é que começam mesmo essas pontes de uma maneira mais efetiva. O que eu recomendo a você que vai fazer Medicina é começar a fazer estágios em hospital, consultórios e clínicas desde cedo desde cedo. Já no 7º, 8º período, por exemplo, você já pode fazer estágios em hospitais públicos e começar a ganhar mão, a trabalhar melhor e quando sair da faculdade estará um pouco mais preparado para algum tipo de trabalho mesmo sem residência. O ideal é você sair da faculdade direto para a residência.


Quanto ganha aproximadamente um médico com a sua formação?

A carreira vale muito a pena, não sou só eu que acho, o mercado de trabalho fala isso, tanto que os cursos de Medicina são os mais concorridos no vestibular. Por que vale muito a pena? Eu vou falar primeiramente financeiramente. Qualquer cidade, em qualquer lugar, qualquer centro precisa de um médico, então você tem emprego garantido. Isso é uma grande vantagem. Não importa se é uma cidade pequena ou grande, você sempre conseguirá algum tipo de emprego e não ficará desempregado, sem condições e sem dinheiro. Isso comparado, por exemplo, com um gerente de fábrica, com um supervisor, você precisa ser contratado e hoje em dia nesta crise as empresas normalmente demitem, então você terá uma sensação de vulnerabilidade no mercado.

O médico passa meio isento disso. Ele sofre uma situação bem crítica quando ele não tem um hospital para trabalhar onde ele faça parte do corpo clínico. Ele começa a dar plantão em vários lugares, sua saúde é comprometida, e acaba ficando doente facilmente porque precisa criar a família, pagar as contas, está vivendo de plantão e isso realmente é um drama e um grande problema, mas financeiramente o médico não deve passar por situações, por exemplo, como estão passando hoje muitos profissionais de empresas em geral. Quanto ganha um médico mais ou menos? O Programa de Saúde da Família do Governo Federal paga em torno de 10-15 mil reais, então é um salário bem razoável para você começar a sua vida profissional.

Eu recomendo que você tenha uma especialidade, que não seja um médico sem formação que sai da faculdade e vai trabalhar. De maneira nenhuma, é importante você fazer uma residência, estudar muito e se dedicar mesmo. Se for o caso, fazer um curso ou especialização fora, um estágio pelo menos que foi o que eu consegui fazer e me ajudou demais. Conheci pessoas de outros países e fiz amizade com elas. Até hoje temos algum contato e isso abre sua cabeça do ponto de vista cultural dentro da sua profissão. Então, eu recomendo muito fazer residência e alguma coisa a mais para que você possa se dedicar a uma especialidade e ser uma referência naquele assunto.

Um especialista hoje em um hospital particular deve ganhar em torno de 30 a 40 mil reais depois de algum tempo de profissão, estabilidade financeira na cidade e reconhecimento. Alguns profissionais ainda podem ganhar mais do que isso, mas lógico que isso não é o padrão. A grande maioria dos médicos no Brasil que enfrenta situações críticas como falei passa pela questão da sobrevivência através de plantões. Os médicos que atuam na área pública estão em uma situação mais crítica ainda porque o SUS paga muito mal. Eu trabalho no SUS também, não tenho a fonte principal de renda do SUS, mas eu sinto um dever moral, uma vontade dentro de mim de ajudar essas pessoas que passam dificuldade com o atendimento um pouco melhor. Completei dez anos de trabalho no hospital público em Foz do Iguaçu, já fiquei cinco, seis meses sem receber desse hospital. Eu sei que muitas pessoas não podem fazer isso porque dependem desse salário. Não dá para falar em dever moral, lógico, em uma situação dessas. Ficar sem receber é inaceitável, então é uma situação bem crítica e delicada nesse aspecto quando envolve SUS, mas quando você olha para o Paraguai, por exemplo, país aqui do lado que não tem SUS (Sistema Único de Saúde) como Medicare também nos Estados Unidos, você vê que é pior ainda. Quando reclamamos do SUS e vamos ao Paraguai, a situação é mais crítica, mas é outro assunto que não cabe trazer essa questão agora.

Porém vale a pena lembrar que se você vai se formar e fazer o vestibular para Medicina, desde já eu recomendo que você estude Psicologia e desenvolva sua sensibilidade humana. Você lidará com vidas, não é uma questão só financeira obviamente. Você tem um papel essencial na vida humana que é salvar e ajudar as pessoas, evitar que elas fiquem doentes, então o seu raciocínio precisa de um código moral. Um psicólogo americano fala isso e acho muito interessante, o Dan Ariely afirma que é importante a pessoa ter um código moral para não cair nas corrupções e loucuras do dia a dia que todos nós, pessoas que não são corruptas e criminosas estamos sujeitas. Ele tem várias pesquisas sobre isso mostrando que nós profissionais, pessoas comuns responsáveis e pais de família precisamos ter esse código moral como uma profilaxia porque a vida tem muitas surpresas, então você precisa estar vacinado para essas questões que envolvem a complexidade da vida humana.


Quais são as principais vantagens da carreira em Medicina?

Eu gosto demais da minha profissão e me sinto muito realizado com o que eu faço porque consegui aliar uma convergência bem séria que é a profilaxia, meu tema de pesquisa. Estudo muito profilaxia, evitar que a pessoa fique doente e quando entro em um consultório, eu tenho muita facilidade de perceber o que a pessoa é e a partir desse padrão, consigo estabelecer uma estratégia terapêutica para essa pessoa dentro do consultório. A minha alegria é conseguir extrapolar aquele paradigma do diagnóstico do remédio: em caso de colesterol alto, dar uma estatina e para pressão alta, prescrever um remédio da pressão, então eu acho que precisamos extrapolar um pouco mais isso.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia atualmente deu um parecer autorizando o cardiologista a fazer diagnósticos dentro da área da Psicologia Cognitiva, por exemplo, o TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) inclusive medicar, então nós estamos estudando as medicações. Dentro desse curso de atualização que eu faço, precisei reciclar os meus conhecimentos nessa área da Farmacologia e aí hoje em dia isso ajuda demais porque conseguimos fazer um diagnóstico, encaminhar para um terapeuta para que ele possa ajudar na ansiedade, no estresse e na depressão. Essa é uma alegria que eu sinto dentro do consultório em ajudar uma pessoa a não infartar daqui a 20 anos por exemplo. Isso me dá um profundo bem estar. As vantagens da medicina e da Cardiologia é que você tem emprego garantido porque como eu disse, qualquer cidade e qualquer lugar precisam de um médico, essa é uma grande vantagem: você não vai ficar desempregado. O pior que pode acontecer é você dar plantão e viver disso, mas você pode durante esse tempo, fazer uma especialização e a partir daí se dedicar a uma especialidade específica.


E quais as maiores dificuldades e desafios?

Eu acho que o maior desafio é você aliar a teoria com a prática dentro do seu perfil e da sua habilidade. Você tem profissionais às vezes que possuem uma determinada especialidade, mas você vê nitidamente que aquele perfil não se adapta aquela especialidade, então a pessoa não tem habilidade com as mãos, por exemplo, e quer ser cirurgião, então isso é um problema. Por mais que a pessoa queira, você vê que o rendimento dela é sempre mais ou menos abaixo. Você vê às vezes uma pessoa que é um clínico que atende em consultório, mas não aprofunda muito conhecimento técnico específico. Não é porque é clínico que você fala e faz qualquer coisa, então existem diretrizes e protocolos hoje em dia para isso. Eu pessoalmente coordeno o protocolo de insuficiência cardíaca do hospital Costa Cavalcanti, então, precisei estudar muito esse conteúdo de insuficiência cardíaca, depois preparar o protocolo, as diretrizes, fazer reuniões com os médicos, treinamento com os plantonistas, com a enfermagem, com a equipe de enfermagem e reuniões periódicas. O conhecimento teórico é muito grande e precisa ser posto em prática. Uma dificuldade é você juntar as suas habilidades, o seu perfil com as necessidades daquela área e oferecer alguma coisa a mais. Essa é uma dificuldade natural.


O que se estuda na faculdade de Medicina?

Bom, eu fiz a UNIRIO no Rio de Janeiro e me formei em 2003. Posso falar do que eu estudei. Na época, o cronograma do curso era muito fragmentado. Hoje em dia, a faculdade de Medicina, por exemplo, a UNILA em Foz do Iguaçu já oferece um conteúdo bem mais integrativo. Naquela época, estudávamos no primeiro período Anatomia 1, no segundo Anatomia 2, Fisiologia no terceiro, depois Farmacologia no quarto, no quinto período íamos ao hospital. Claro que tinham outras matérias como Parasitologia, Imunologia, Semiologia, todas essas áreas que acabamos precisando em uma faculdade. No 5º período, você ia para o hospital e começava a aprender a entrevistar o paciente, já usava o seu estetoscópio, então quando você coloca o estetoscópio, parece que você virou médico. Essas etapas da faculdade são engraçadas. Você olha hoje aqueles meninos assim 22, às vezes 17-18 anos com um estetoscópio, jaleco e é muito legal, começamos a nos sentir importantes e a sentir ali uma ferramenta para poder ajudar a sociedade e isso é bem bacana do ponto de vista de quem está passando pela situação. Então, essas são as matérias que você estudará em um curso de Medicina, hoje em dia muito mais elaborado e o conhecimento está mais integrado e isso é bacana porque você aprende outras áreas.

Eu recomendo estudar Psicologia, por exemplo, eu fiz a disciplina de Psicologia na faculdade, mas em uma sala de 60 alunos, só eu e mais três fizemos a prova, o resto não deu importância. Hoje em dia nos Estados Unidos, a Psicologia movimenta muito mais dinheiro em termos de estudo do que a própria Medicina. A Terapia Cognitivo Comportamental é tida como uma das ferramentas mais importantes de tratamento e alívio nas doenças, principalmente estresse, ansiedade, depressão e você vai lidar com isso o tempo todo na Medicina, então é importante você se calçar e ter essa informação. Não deixe de lado. Não pense que tudo que está fora de Fisiologia, Histologia e Farmacologia é secundário. Para estudar áreas como Cardiologia, Urologia e Psiquiatria, qualquer faculdade está oferecendo esse conteúdo. Você sairá da faculdade com mais ou menos a mesma carga de conteúdo do que os seus colegas, o diferencial está em aprofundar o seu conhecimento em outras áreas e a Psicologia é uma das áreas mais afins com a Medicina de você se dedicar.


Quais as matérias do colégio são mais importantes ao se preparar para essa carreira?

Eu uso aqui um princípio do Gustavo Ioschpe que é um colunista famoso de educação: você precisa estar bem com você. Por exemplo, se você gosta de si mesmo, já se avaliou, tem 17-18 anos e está “de boa” como se fala, está de bem e quer escolher uma profissão, as matérias principais que você precisa ter atenção são aquelas áreas de Exatas e Humanas que está “careca de saber” e ter essa noção. Mas tem um dado importante que além da matéria do colégio é você olhar para dentro de você e buscar o seu perfil, então se você é uma pessoa é comunicativa, se gosta de pessoas, se é alguém mais do livro ou mais da mecânica, de mexer com concreto, com matemática, cálculos e física, ou seja, descubra o seu perfil.

A matéria que você está estudando no colégio às vezes pode te confundir mais do que ajudar. Eu conheço pessoas, por exemplo, que são grandes empreendedores e são médicos. Você vê a veia da pessoa com a Matemática, Cálculo e Economia, mas faz um MBA de Gestão e é médico. Lá no vestibular, ele escolheu Medicina, mas lá na pós-graduação depois da residência, está fazendo MBA em Gestão e conhece tudo de Contabilidade, então precisamos ser um pouco mais relativos nessa questão. O importante mesmo é você olhar para o seu perfil e aonde você se enquadra. Minha sugestão é não olhar para fora, não fique só olhando como é que é a profissão lá fora, isso com um olhar, você já vê. O mais importante é descobrir o seu perfil.


Há outras aprendizagens e experiência importantes ao longo da carreira em Medicina?

Sim, por exemplo, eu falei mais da Cardiologia que é a minha especialidade, mas a escola médica tem limitações e não consegue preencher aquela condição importante para você ser um bom médico, por exemplo, a humanização é praticamente uma especialidade e você não aprende humanização na faculdade e na hora que você vai dar plantão numa UTI você vê que é uma UTI humanizada. A Medicina não te oferece isso, então é muito importante você crescer por dentro enquanto pessoa, seus valores. São questões que a faculdade e o cursinho no final do terceiro ano não falam sobre, mas é importante você identificar os seus valores. Em longo prazo, isso vai te fazer um grande profissional. Há médicos em todos os lugares, mas você pode avaliar o seu nível de egocentrismo, se você é uma pessoa muito egocêntrica ou mais altruísta. Isso fará a diferença na hora que você for abrir mão de uma consulta porque uma pessoa mais pobre não tem condição de pagar e você vê que tem pessoas que não se importam, isso mostra a sua sensibilidade.


Por que você escolheu Medicina?

Eu estava bem perdido nos meus 16-17 anos, não sabia o que queria e fui fazer Direito. Passei no vestibular, eu era razoavelmente bem dedicado, me dava bem nas matérias, mas tive medo de fazer Medicina. Então, passei para Direito e fiz dois anos e meio. Depois, resolvi correr atrás dos meus valores e do que realmente gostava. Eu lembro que quando eu era pequeno, eu falava que queria ser médico, a maioria dos meus amigos se tornaram médicos e na hora de fazer Direito, eu realmente não tive coragem e achei que o vestibular era mais difícil. Escolhi essa carreira olhando para dentro de mim quando realmente decidi pela Medicina, então o meu processo de escolha não foi fácil.

Eu fiz um teste vocacional, nesse teste deu que eu poderia ser qualquer coisa que quisesse: arquiteto, advogado, médico, farmacêutico, o que não ajudou em nada na época. Hoje, nós temos testes vocacionais, avaliação psicológica muito mais profunda e mais específica que dá uma resposta muito mais próxima da realidade. Eu tive que rever a minha decisão, tinha feito Direito, depois fui fazer Medicina.


Como deve ser a personalidade e quais devem ser os interesses, desejos e valores de alguém que segue esta profissão?

Bom, eu penso que o médico precisa ter uma sensibilidade às pessoas. Precisamos ter um olhar mais humano. Não lidaremos com casa, motor, gestão, às vezes pode até lidar com a gestão pública na saúde, mas você será empresário. Você pode ser empresário de um hospital, mas ao mesmo tempo você está lidando com vidas, com gente, então novamente, acho que identificar o valor humano em você é muito importante, é muito mais do que ter o conteúdo médico que toda a faculdade oferece: os seus estudos e as suas provas, mas precisamos entender um pouco mais dos valores morais, não estou sendo puritano nem nada disso, mas estudar o que é a Ética. A Bioética é uma área hoje fundamental. Você passará por dilemas morais na sua faculdade, na sua vida e não será aquela professora ou disciplina que te dará resposta, você precisará buscar respostas dentro de você e estudar escala de valores. Eu recomendo que todos nós de alguma maneira passemos por uma experiência de fazer algum tipo de terapia para se conhecer um pouco mais e ter um pouco mais de noção sobre você mesmo e seu perfil. Eu acho que isso ajuda bastante.


Existem filmes que exemplifiquem a área profissional?

Existe um filme chamado Quase Deuses que é a história do Blalock, cirurgião que fez a cirurgia da tetralogia de Fallot. Na verdade, quem desenvolveu essa técnica foi o assistente dele que era negro, então eu recomendo que você que vai fazer Medicina veja esse filme para ver o que é a arrogância e habilidade do médico, para você ver que assim que você se tornar médico, não será superior a ninguém. Há muito essa ilusão de que nós podemos tudo, isso provavelmente vai te anestesiar por algum tempo, 2-3 anos, mas a vida profissional rapidinho já te coloca no lugar e nivela essa situação porque não tem jeito, o residente sai realmente muito turbinado e se achando acima da média. Esse filme faz a profilaxia de muitos erros de abordagem em relação à própria Medicina.


Como alguém pode fazer para saber mais sobre Medicina?

Eu não tenho um site ou canal, mas estou muito imerso na questão da Cardiologia e não em outras áreas, então o meu viés aqui é cardiológico da Medicina. Eu recomendo que as pessoas visitem pacientes em hospitais e vejam pessoas doentes. Como eu falei, eu gosto muito de evitar que a pessoa fique doente, então o meu consultório tem muitas pessoas saudáveis e que me procuram para não ficar doentes.


Que dicas de carreira e de vida em geral você gostaria de oferecer para um jovem que está escolhendo Medicina nesse momento?

O que eu diria para você que vai fazer vestibular e que está pensando em fazer Medicina é não se iludir com o poder do médico. Ele é uma ilusão, você não terá esse poder todo e outra coisa muito importante: o conhecimento técnico é 50%, os outros 50% vêm do seu perfil, então qualquer porta que você bata em um hospital e consultório terá um médico atendendo. Por trás desse médico atendendo, tem uma história de vida. Essa história de vida precisa estar relativamente bem resolvida, então é importante você olhar para outros canais dentro de você que não só o canal da cognição do conhecimento médico, o seu temperamento precisa ser levado em conta. Aqui em Foz do Iguaçu, nós tivemos vários médicos que foram presos por envolvimento em corrupção, então veja: toda uma carreira jogada no lixo. Não entre nessa, estude seus valores morais, avalie o seu nível de egocentrismo e sua capacidade de viver em grupo, de compartilhar as suas experiências, avalie tudo isso. A sua faculdade será muito rica. Um dos melhores momentos da vida é a hora que você está estudando, aprendendo, se dedicando com a sua profissão nascendo ali. Em poucos anos, você será um profissional e estará no mercado, na vida, então é importante você se preparar para a vida.

A Medicina te dá o conhecimento técnico, mas a vida precisa muito mais do que um conhecimento médico, ainda mais a vida profissional. Só para ilustrar, Goethe dizia que a cooperação no meio médico é uma das mais difíceis, ou seja, onde você mais encontrará inveja e competição. É um ambiente bem competitivo, então você precisa se preparar para isso e estar forte por dentro. Essa é a recomendação que eu te dou para que você seja mais um grande profissional a fazer diferença no mercado e criar uma rede de pessoas que também façam essa diferença, não só visando o lucro. Você terá lucro e ganhará razoavelmente bem, não se preocupe com isso, se preocupe em ser um grande profissional como pessoa e ser humano para fazer a diferença nesse mundo tão complexo e difícil que estamos vivendo e nessa época de problemas políticos e sociais.

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