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Engenharia de Minas

Engenharia de Minas

Carreira e profissão

Entrevista com José Aurélio Medeiros da Luz, Engenheiro de Minas pela UFOP com Doutorado em Processamento de Minerais pela UFMG

Qual é a área de atuação do engenheiro de minas?

Um engenheiro de minas tem uma atuação intermediária, em linhas gerais, entre um geólogo e um engenheiro metalurgista ou de um engenheiro químico. O engenheiro de minas, a partir dos estudos geológicos feito pelos geólogos, já começa a sua atuação também na parte de prospecção e pesquisa, viabiliza finalmente alguns dos jazimentos, tornando-os econômicos em função das técnicas que usará. O cerne do engenheiro de minas, então, seria a concretização desta lavra, desse aproveitamento econômico com o mínimo de danos ambientais possível e o enriquecimento desse minério na segunda etapa, fazendo então as duas grandes divisões da Engenharia de Minas: a parte de lavra e do beneficiamento de minerais. A partir daí, os minérios beneficiados subsidiarão a indústria de transformação, a indústria química e a indústria metalúrgica.


Qual é o perfil do engenheiro de minas? O que faz esse profissional?

O engenheiro de minas tem um perfil ótimo. É aquele profissional que gosta de desafios, que possa lidar na sua profissão, no dia a dia tanto na região, por exemplo, ínvia (sem vias de acesso) ou pouco populosa como Amazônia na parte de prospecção, por exemplo, afinal de contas, as minas existem e o engenheiro de minas tem que transformar em um bem econômico onde elas estão. Então, o primeiro aspecto é isso: um engenheiro de minas precisa estar disposto a desafios em regiões mais distantes, por exemplo, ou mesmo a parte mais tecnológica de caracterização de ensaios em escala de bancada, laboratórios, projetos de engenharia, isso já poderia ser feito em grandes centros urbanos. Então, a ação do engenheiro de minas é tanto na operação de uma lavra com a otimização e não é só chegar com as máquinas. Você tem que ter toda a técnica para otimizar o uso do recurso natural e humano também porque os recursos são limitados. Em geral, para se retirar recursos da crosta terrestre, modificações e impactos ambientais precisam ser minorados depois, então o engenheiro de minas trabalha na fase de projeto de lavra, na fase da extração, e depois, no fechamento da mina também e na disposição dos rejeitos. Concomitantemente com a lavra tem um beneficiamento dos minérios. Ele trabalha em usinas de tratamento aonde chega o minério bruto e sai o minério enriquecido.


Que tipo de ferramentas, recursos, ideias e metodologias um engenheiro de minas usa?

 O engenheiro de minas utiliza uma vasta gama de instrumentos por assim dizer, tanto instrumentos de metodologia quanto instrumentos físicos: instrumental e de equipamentos. De um modo geral, o engenheiro de minas trabalha muito na fase de projetos nos computadores. Hoje em dia, essa otimização dos recursos é obtida à custa de muitas simulações em computador procurando maximizar o recurso natural, ou seja, extrair o máximo de benefício com o mínimo de impacto ambiental, o mínimo de impacto no que tange à saúde dos trabalhadores e maximizando portanto o benefício econômico de modo conjunto. Trabalha muito com o computador nessa fase de projeto, na fase de pesquisa e prospecção se trabalha também com máquinas de sondagem, e depois, na fase de operação são aquelas grandes máquinas, seja em mina a céu aberto, seja em mina subterrânea onde você vai fazer toda a programação das operações com essas máquinas que deem o menor custo operacional possível e o máximo de extração e segurança também para o pessoal especialmente no que tange às minas subterrâneas. Então, de modo geral é uma vasta gama de instrumentos que o engenheiro de minas usa tanto dos conceitos teóricos de mecânica, rocha, geologia, tratamento de minérios, química e física. Então é uma profissão sob o ponto de vista científico e técnico, muito generalista. O engenheiro precisa trabalhar conceitos de química, física, conceitos ambientais e procurar transformar isso em um modo harmônico, fazer com que algo que não tem valor intrínseco no solo, subsolo, passe a ser um bem econômico à disposição da humanidade.


Como está o mercado de trabalho para o engenheiro de minas?

A profissão de Engenharia de Minas é uma profissão antiga e por isso que antigamente existia Engenharia Militar, Engenharia Civil e Engenharia de Minas praticamente há um século e meio atrás. Depois é que as diversas engenharias foram se desenvolvendo, dando nomes. Então nesse quesito, apesar de ser um curso antigo, nós estamos vendo um acréscimo à medida que o PIB (Produto interno bruto) do país vai crescendo, as demandas por engenharia de minas também crescem na mesma proporção. Tirando algumas oscilações devido a problemas pontuais, eu acho que a Engenharia de Minas ainda tem muito espaço para crescer no nosso país.


Quanto ganha aproximadamente um engenheiro de minas?

Um engenheiro de minas, como todo engenheiro quando júnior e ainda engenheiro trainee, o salário é o mínimo estipulado pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) que me parece que é oito e meio salários mínimos, esse é o recém formado. À medida que o engenheiro vai se aprimorando, seu salário vai crescendo na proporção desse aprimoramento. No caso de um professor universitário, por exemplo, com doutoramento, o salário é típico para todas as profissões com ganhos também de bolsa de pesquisa e os outros aspectos que às vezes nos favorecem. O salário de um professor com doutoramento é da ordem de 17 mil reais que é, em relação à indústria, um salário baixo porque nas indústrias têm os esquemas de benefícios que acabam aumentando o salário com 14º, 15º salários, 16º por vezes, isso nas grandes empresas e considerando também profissionais de larga experiência que terão um salário bom. Resumindo: sob o aspecto financeiro, a Engenharia de Minas é uma das boas opções no mercado em termos de engenharia.


Quais as principais vantagens da Engenharia de Minas?

Talvez as principais vantagens da Engenharia de Minas são essa visão holística que o engenheiro de minas precisa ter no que tange ao conhecimento de física, química e operação de máquinas, sejam máquinas de escavadoras, sejam máquinas de abertura de túneis, máquinas de tratamento de minério, então é todo um ambiente bastante dinâmico e isso dá uma alegria.  É como um professor antigo nosso aqui da Engenharia de Minas (nosso curso tem 130 e alguns anos de vida) comentava que para o engenheiro de minas, a mina é uma verdadeira missão, mais ou menos como se fosse o nosso navio, a nossa nau e temos a missão de um Cristovão Colombo de levar esse navio às novas terras e descobrimentos. Então, a mina passa a ser mais do que uma entidade física, passa a ser o nosso navio. O professor Joaquim Maia é que se expressou dessa forma, eu acho que foi muito feliz e isso nos anos 1952 se não me engano. A vivência de cada um é diferente, mas pessoalmente tenho tido muitas alegrias profissionais com a profissão.


E quais são as principais dificuldades e desafios?

Apesar de ser uma profissão antiga, a Engenharia de Minas vem se desenvolvendo obviamente no decorrer de todo esse tempo, os desafios aumentam, os minérios mais fáceis de se lavrarem e se beneficiarem são extintos e cada vez mais aumenta o desafio de você lavrar mais com menos e com um mínimo de impacto tanto de salubridade, você manter a salubridade do trabalho para o entorno do empreendimento, quanto também minimizar o aspecto ambiental que é um tópico que o engenheiro de minas nunca pode esquecer: sua ação tem que ser ambientalmente justificável e minimizar esses efeitos.


Que tipo de trabalhos você já fez? E qual foi a sua maior alegria na profissão?

Trabalhei e tive sorte de trabalhar em muitas áreas. Por exemplo, quando me formei inicialmente trabalhei abrindo poços e galerias em minas subterrâneas, depois trabalhei inclusive na parte de abertura de estradas, depois fui para a área de projetos na parte de processo de beneficiamento de minerais e projetos de grande porte de ouro, minério de ferro, fosfato e vários minérios, então essa variabilidade me deu muita alegria de ter uma gama de problemas e desafios novos a cada instante. Inclusive na universidade, você amplia essa gama de desafios porque a cada orientação que você faz, você procura adequar a sua orientação ao que o aluno naturalmente gostaria de ter. Se o aluno tiver um viés mais experimental, você tem que trabalhar mais com problemas experimentais, se o aluno gostar mais de computação você procura um tema onde você tem a simulação matemática, a otimização computacional. Isso então nos dá uma variabilidade enorme de desafios e acaba sendo muito gratificante. Seria até difícil citar as grandes alegrias. Ao final do dia é uma sensação de dever cumprido que dá uma alegria boa.


Quais disciplinas são fundamentais no curso de Engenharia de Minas?

Na universidade, como eu disse, aquele leque das disciplinas iniciais que chamamos de propedêutica são preparatórias para o ciclo profissional. São a Física, a Química e a Matemática. É claro que quando falamos assim, parece uma coisa difícil, espantosa, mas não. A Química, a Física e a Matemática quando aplicadas à Engenharia são menos áridas exatamente por serem aplicadas, então fica mais fácil de ver a utilização de conceitos que poderão ficar abstratos como, por exemplo, a multiplicação de matrizes. Quando você vê essa multiplicação de matrizes no dimensionamento, por exemplo, na otimização de um sistema de moagem de minérios, você percebe que aqueles conceitos que são tão abstratos naturalmente acabam tendo uma aplicação e você acaba percebendo que essas disciplinas são importantes.


Quais aprendizagens ao longo da vida e matérias do colégio são importantes para se preparar para Engenharia de Minas?

Voltando para trás no que tange ao Ensino Fundamental e Médio, acho que a grande vantagem para o engenheiro e não só o engenheiro de minas, é ter uma visão global sobre os problemas do mundo, uma postura ética e isso se consegue especialmente trabalhando todo o Ensino Médio e Fundamental se dedicando às matérias e se dedicando no sentido de que não precisamos ser sempre o melhor aluno, isso é uma coisa secundária. O que temos que ter certeza é que, dentro das nossas capacidades nós fizemos o melhor que pudemos.  Isso é importante em todas as disciplinas, eu não vou tirar nem Sociologia nem Filosofia, não vou pôr Matemática como mais importante. Eu acho que todas cumprem o seu papel fundamental de criar um sistema holístico para que o conhecimento possa florescer em benefício tanto da autorrealização quanto à sociedade onde nos inserimos.


Por que você escolheu a carreira de Engenharia de Minas?

Como eu falei, a Escola de Minas de Ouro Preto é bastante antiga.  Um tio meu se formou aqui vindo de Santa Catarina, a minha família é catarinense embora eu seja goiano, ele se formou em 1948 em Ouro Preto, então acabei vendo na Geologia, na Engenharia de Minas uma área interessante e acabei seguindo os passos desse velho tio. Foi aquele entusiasmo que me levou a ir para Ouro Preto, uma cidade do interior, saí de Goiânia, vim para cá. Na época, eu estava com algumas dúvidas de escolha na área. Eu gostava de muitas disciplinas, então tive certa dificuldade em escolher. Pensava, por exemplo, em Física, também gostava muito de Botânica, mas acabei ficando com Engenharia de Minas e de fato não me arrependo. Foi uma decisão interessante que tem me dado gratificação.


Como deve ser a personalidade e quais devem ser os interesses, desejos e valores de alguém que segue carreira de Engenharia de Minas?

Como eu disse, nesse panorama da profissão, o requerido do engenheiro de minas como pessoa e como personalidade é gostar de desafios, se sentir bem em áreas às vezes pouco habitadas, por muitas vezes a pessoa é muito ligada ao meio urbano e não escolhemos o lugar das minas, elas estão onde estão e você tem que ir até elas, lavrá-las com o menor impacto ambiental possível, transformar aquele material que em tese não teria valor em uma coisa valiosa para a humanidade. Então, muitas vezes o engenheiro de minas tem que trabalhar em zonas mais ínvias, mais distantes, então o primeiro aspecto é gostar de desafios de modo geral, estar aberto, não precisa ser gênio em Matemática, Física e Química para se dedicar a isso, simplesmente ter aquele interesse. O grau de interesse é que manda muito no sucesso da carreira, o entusiasmo de cada dia e isso é muito mais importante do que um talento excepcional. É claro que o talento excepcional ajudaria, mas na verdade o interesse em estar sempre aprendendo é a chave fundamental, não só da Engenharia de Minas como de toda profissão, então essa abordagem generalista do engenheiro de minas é bastante típica. De preferência, hoje em dia gostar da utilização de recursos computacionais, o que também facilita, mas de resto nada que seja difícil ou que só os eleitos que possam fazer. Qualquer pessoa dado seu nível de interesse pode vir a fazer uma carreira bastante proveitosa na Engenharia de Minas.


Por fim, que dicas de carreira e de vida em geral você gostaria de oferecer para um jovem que está escolhendo sua profissão nesse momento?

O momento da escolha é um momento difícil até por uma questão etária. Em geral, o aluno vai sair com 17 e 18 anos ou cerca dessa idade e são decisões tomadas que são válidas provavelmente para o resto da vida. A primeira coisa é pensar bem naquela decisão que você vai tomar, na suas escolhas, somar os pontos positivos e negativos de cada uma delas e acho que como engenheiro de minas, se vocês vierem escolher Engenharia de Minas tem muitas probabilidades de vocês conseguirem autorrealização no que tange à sua escolha desde que essa escolha seja feita de modo maduro. Eu digo o seguinte: o modo maduro é fazer sempre todas as atividades do melhor modo possível, se dedicando ao máximo. Se fizer outro curso também, essa dica é válida. Em modo geral é o comprometimento que temos com as nossas escolhas é o que nos leva ao sucesso. 

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